Quanto sobrou no fim do mês: a conta certa

Saldo na conta no dia 30 não é sobra. Veja a conta simples para descobrir quanto sobrou de verdade, contando fatura e parcelas que ainda vão cair.

Mulher sentada à mesa da cozinha olhando o aplicativo do banco no celular com papéis de conta ao lado
Foto: HUUM │sauna heaters · Pexels

Quanto sobrou no fim do mês não é o número que aparece na conta no dia 30. Sobra de verdade é o que você consegue tirar dali e não vai fazer falta nos próximos dias. Para achar esse número, pegue o saldo e desconte tudo que já está comprometido: fatura do cartão que fecha, boleto que vence, parcela que já foi assumida, o que você ainda vai gastar de mercado até o salário cair.

Parece óbvio quando está escrito. Mas é justamente isso que quase todo mundo erra, porque o extrato mostra uma coisa e a vida mostra outra.

Saldo positivo não é a mesma coisa que sobra

A Camila ganha R$ 3.400 por mês. No dia 30, abriu o aplicativo do banco e viu R$ 380. Ficou feliz: mês fechado no azul, ainda sobrou uma grana.

Só que a fatura do cartão dela fecha dia 2 e já estava em R$ 260. Tinha também a mensalidade da academia, R$ 89, que sai automático no dia 5. Fazendo a conta: 380 menos 260 menos 89 dá R$ 31. Não é R$ 380. É trinta e um reais.

E olha que ela não estava devendo nada, não usou cheque especial, não pediu emprestado. Fechou o mês sem ficar no vermelho. “Não tô devendo” e “sobrou dinheiro” são coisas diferentes, e essa confusão é o que faz muita gente gastar em outubro o dinheiro que já era de setembro.

O problema do saldo é que ele é uma foto de um instante. Ele mostra o que já saiu, não o que está a caminho. Cartão, boleto e débito automático são gastos que você já fez, só que o dinheiro ainda está sentado na sua conta esperando a data.

A conta que realmente responde quanto sobrou

É uma subtração só. Você não precisa de planilha, de categoria, de regra de porcentagem.

Sobra real = o que entrou no mês, menos tudo que já está comprometido.

Comprometido é:

  • o que já saiu da conta (aluguel, mercado, Pix que você mandou);
  • o que ainda vai sair deste ciclo (fatura que vai fechar, boleto com vencimento, débito automático);
  • as parcelas que você já assumiu e vão continuar caindo;
  • o que falta gastar até o próximo salário (feira, transporte, gasolina).

O último item é o mais esquecido. Se você recebe no dia 5 e faz essa conta no dia 30, ainda faltam seis dias de vida real pela frente. Alguém vai almoçar fora, alguém vai encher o tanque.

No caso da Camila, seria assim: entrou R$ 3.400. Saíram R$ 1.200 de aluguel (a parte dela, que divide com a irmã), R$ 640 de mercado, R$ 210 de luz e internet, R$ 180 de transporte, R$ 430 em Pix e compras avulsas. Falta a fatura de R$ 260 e a academia de R$ 89. Total comprometido: R$ 3.009. Sobra: R$ 391. Mas ela já tinha torrado parte disso durante o mês, e por isso o saldo estava em R$ 380 e não em R$ 391. A diferença de R$ 11 é besteira, o que importa é que dos R$ 380 que ela viu, R$ 349 já tinham dono.

E as parcelas?

Parcela é a maior armadilha aqui. Você compra um celular de R$ 1.800 em 12 vezes, paga R$ 150 por mês, e mentalmente aquilo virou “um gastinho fixo”. Mas se faltam sete parcelas, você já deve R$ 1.050 que ainda nem apareceu em fatura nenhuma.

Para a conta do mês, o que conta é a parcela do mês. Só que vale ter na cabeça o total que falta, porque isso muda a resposta para a pergunta “posso comprar isso em 10 vezes?”. Se você já tem quatro compras parceladas rodando, a próxima parcela pequena não é pequena: ela entra numa fila que já está grande.

Por que o extrato engana tanto

Tem três motivos bem práticos, e nenhum tem a ver com falta de disciplina.

O primeiro é o descompasso do cartão. Você gasta em agosto e paga em setembro. Se você olha só a conta, o gasto de agosto está invisível por semanas. Quando a fatura chega, parece que o mês piorou do nada, mas o dinheiro tinha sido gasto lá atrás.

O segundo é a conta conjunta ou a conta que fica no nome de um só. O Bruno paga a internet de R$ 120 e o mercado de R$ 240 pelo cartão dele, e a Ana devolve a metade por Pix uns dias depois. Se o Bruno olhar o saldo antes de receber a parte dela, o mês dele parece um desastre. Depois que a Ana paga, parece que sobrou dinheiro que na verdade nunca foi dele. Quem divide despesa precisa saber o que é gasto seu e o que é dinheiro passando pela sua conta.

O terceiro é o gasto que não acontece todo mês. IPVA, seguro anual, presente de aniversário, remédio, conserto do carro. Você fecha três meses com R$ 400 sobrando e acha que resolveu a vida. Aí vem um mês com IPTU e some tudo. Essa sobra dos três meses não era sobra, era o dinheiro do IPTU esperando a hora.

Como fazer isso sem planilha

Dá para chegar no número em uns dez minutos, e não precisa ser no fim do mês. Eu faria uns dias antes do salário cair, quando ainda dá tempo de segurar alguma coisa.

  1. Anote quanto entrou. Salário, freela, aquele Pix que alguém te devolveu. Só o que é seu de verdade.
  2. Abra a fatura do cartão, mesmo que ainda não tenha fechado. O aplicativo mostra o valor parcial. É esse número que você usa, não o da fatura passada.
  3. Liste o que ainda vai cair. Débito automático, boleto com vencimento nos próximos dias, assinatura que renova. Não confie na memória, olhe os avisos.
  4. Estime o que falta gastar até o próximo pagamento. Chute para cima. Se você acha que vai gastar R$ 150, escreva R$ 200.
  5. Subtraia tudo do que entrou. O que restar é a sobra.
  6. Tire esse valor da conta corrente. Manda para outra conta, para uma reserva, para onde for. Enquanto o dinheiro estiver junto com o resto, ele vai ser gasto.

O passo 6 é o que mais gente pula, e é o que faz diferença. Sobra que fica na conta corrente não existe por muito tempo.

Anotar durante o mês facilita muito

A parte chata dessa conta é lembrar do que aconteceu. No dia 30 ninguém sabe quanto gastou de mercado no dia 12.

É por isso que anotar na hora, mesmo que de qualquer jeito, resolve metade do problema. A Camila faz assim: quando gasta, ela manda a mensagem pro Fin no WhatsApp do jeito que sai, tipo “mercado 240, metade da minha irmã”, e o Fin registra, separa o que é dela e o que é da irmã, acompanha a fatura e as parcelas e mostra o que sobrou no fim do mês. No dia 28 ela só olha o resumo em vez de reconstruir o mês inteiro de memória.

Qualquer método serve, inclusive bloco de notas do celular. O que não funciona é tentar lembrar depois.

O que fazer quando a sobra der negativa

Vai acontecer, e não é o fim do mundo. Se a conta deu negativa em R$ 200, você descobriu isso antes de o cheque especial descobrir por você.

Com o número na mão dá para agir: adiantar um recebimento, cancelar uma assinatura, segurar uma compra que ia parcelar, avisar quem divide a conta com você que este mês vai apertar. Sem o número, você só percebe o problema quando o banco cobra juros.

E se a sobra der negativa três meses seguidos com as mesmas contas, o problema não é o mês. É que as despesas fixas estão maiores do que a renda, e nenhuma anotação conserta isso. Aí a conversa é outra: cortar uma fixa ou aumentar a entrada.

A Camila, depois de descobrir que sobravam R$ 31 e não R$ 380, cancelou a academia que usava duas vezes por mês e passou a separar R$ 150 no dia seguinte ao salário. Não virou rica. Mas parou de chegar no dia 28 sem saber se dava para pedir uma pizza.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre saldo e sobra?

Saldo é o dinheiro que está na conta agora. Sobra é o que resta depois de descontar tudo que já foi gasto mas ainda não saiu, como a fatura do cartão, boletos e débitos automáticos. É comum o saldo estar positivo e a sobra ser quase zero.

Devo contar a fatura inteira do cartão ou só a parcela deste mês?

Para a conta do mês, use o valor da fatura que vai vencer, que já inclui as parcelas daquele ciclo. O total que ainda falta pagar em parcelas serve para outra decisão: saber se cabe assumir mais uma compra parcelada.

E se eu divido as contas e pago tudo no meu cartão?

Separe o que é gasto seu do que é dinheiro que só passa pela sua conta. Se você pagou R$ 240 de mercado e vai receber R$ 120 de volta, seu gasto foi R$ 120. Anotar isso na hora da compra evita achar que gastou o dobro.

Quando é a melhor hora de fazer essa conta?

Uns três a cinco dias antes de o salário cair, quando ainda dá tempo de segurar alguma compra ou cancelar uma assinatura. Fazer no dia 30, com tudo já gasto, só serve para constatar o estrago.

Quem escreve

Diego Araujo

Fundador do MeuFin

Sou o Diego, fundador do Fin. Acredito que cuidar do dinheiro não precisa ser chato nem virar assunto de briga. Por isso escrevo sobre o básico bem feito: registrar o gasto na hora, entender a fatura, saber quanto sobrou e acertar as contas com quem divide. Sem jargão, sem promessa de ganho, com fonte quando tem número. Reviso cada texto antes de ir ao ar.

Conta pro Fin.

Você conta o gasto do jeito que sair; o Fin registra, separa o que é de cada um e mostra quanto sobrou. Pelo WhatsApp, pela web ou pelo app.